“ Eu cortei os meus cabelos, esfreguei meus olhos e sujei meu rosto e mãos de maquiagem. Minha voz está esganiçada... de tanto soluçar, chorar. As lágrimas não param de escorrer. São lágrimas negras de rímel, que vão descendo e sujando toda a pia. A garganta dói, sinto muita raiva, muito ódio...Incompreensível, incompreendida. É melhor estar só. Isso diminui bastante a ocorrência de eventos infortunados. Não era disso que eu reclamava tanto quando era pequena? Pois então, teimei e tentei não estar só. Não cometo mais esse erro.”

Estava atormentada.
Faziam algumas horas e ela permanecia na mesma posição; sentada na cama olhando fixamente para o chão. Se sentia suja, como todas as vítimas costumavam se sentir. Queria amputar o corpo da cintura pra baixo. Queria chorar, mas não tinha forças.
O telefone tocou, era Jeanne, sua melhor amiga. Atendeu e disse uma só palavra: Venha.
Não ousava olhar para o bilhete, em cima da mesinha, ao lado do notebook. Estava com medo. Será que alguém já sabe o que me aconteceu?
Meninas violentadas não são mais vistas com os mesmos olhos diante a sociedade, pensou Erin. Vai guardar este segredo podre, até que ele destrua a sua vida.
Jeanne chegou e sua presença fez Erin chorar. Queria contar, não sabia como, acabou contando. Jeanne chorou junto com a amiga, abraçou-a forte e disse que agora estava tudo bem. Não vai envolver a polícia, não vai envolver nada.
Os olhos de Erin estavam mais claros que o normal, brilhavam como diamantes. Ela sentia vontade de morrer, outrora de saber porque. Esta segunda opção doía, confundia, dava medo.
- Ele não vai voltar, calma.
- Olha o bilhete na mesinha.
Jeanne leu. Suspirou e colocou a mão na testa.
- Não vai. Eu te prometo, vou te proteger.
- Estou muito confusa, Jeanne... Quero esquecer isso tudo.
- Vai esquecer. - Jeanne levantou - Vou fazer chá.
Conversaram a tarde e a noite toda. Os dias passaram, e o chá de Jeanne foi fazendo Erin melhorar e esquecer aquilo tudo...

Círculos.

Só preciso de um pedaço de carvão.
Eu costumava desenhar algumas formas abstratas. Era algo como sentimentos, se eu pudesse descrever rabiscos como buracos negros, eu daria um significado mais específico. Era ódio, era vento. E girava em torno da minha mente, continuava girando, e mais vezes me cegavam os olhos. Me cegavam os olhos essa poeira toda chamada brilho, memória. Correntes da ventania, correntes do passado. Ambas te prendem e te fazem girar e perder tempo nelas.
Não é como a escuridão, outro tipo de corrente, que eu particularmente me prendi por pura curiosidade e vontade de tal forma que perdi a noção do tempo... Não sei quanto tempo estou preso por essas correntes, talvez antes do meu aparecimento na luz.
A luz, o mundo. Me irritam os olhos, já citei. Os dentes brancos dos sorrisos me fazem cuspir ao longe. A inocência é clara, assim como a mídia e a vontade, a opressão da tal força positiva que eu poderia chamar de manipulação da alma.
São filas coloridas, cheias de mulheres estúpidas, homens grosseiros e crianças nuas. Todos eles andam com caixas vazias em suas mãos, querem preencher... Com o vazio que encontrarão em frente.
Eu desenhei toda essa gente, todos esses lugares. Esse é o motivo de detestar o meu sketchbook, eu não criei uma arte da qual eu me orgulhasse. Mas a arte não somente deve agradar o artista, deve ensiná-lo. Depois, é uma volta para casa, onde não há mais brilho, onde meus olhos estão em segurança total. E o meu caminho para voltar da luz, é uma coisa concreta, por incrível que pareça ao leitor. É negro, um grafite apaixonante. É um pedaço de carvão.

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